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O Processo de Salinização das Águas Superficiais e Subterrâneas no Nordeste Brasileiro

João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

APRESENTAÇÃO

Existe uma preocupação das pessoas, principalmente no meio político, em tentar resolver os problemas do Nordeste brasileiro com soluções imediatistas que, necessariamente, passam pelo uso indiscriminado da irrigação. "Havendo água, o Nordeste estará salvo !".

Esta assertiva ficou bem evidenciada na região, em programas de governos passados para produtores de baixa renda, como os projetos Irriga Pernambuco, Chapéu de Couro, Asa Branca e Água na Roça, em Pernambuco; na Paraíba, com o projeto Canaã e, por iniciativa do governo federal, os projetos do Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para o Nordeste-PDCT-NE e Polo Nordeste, como alternativas viáveis para fixação do homem no campo. Os produtores, por sua vez, eram convencidos a adquirir equipamentos de irrigação, financiados a juros baixos ou mesmo a eles entregues de forma paternalista, sem haver, no entanto, a preocupação de se levar em conta as características ambientais como a qualidade do solo e clima locais, a quantidade e qualidade da água a ser utilizada, nem tampouco as condições de crédito, a existência de tecnologia, insumos e equipamentos, assistência técnica e uma política agrícola regional que tornasse a terra viável também para os pequeno produtores para, a partir daí, haver a indicação do sistema mais propício, ou mesmo a não utilização da irrigação nas áreas possuidoras de situações adversas. Em suma, cada governo cria o seu programa, na maioria das vezes sem levar em consideração as informações técnicas disponíveis ou mesmo as experiências vividas em outros programas semelhantes, gerando, com isso, insatisfações no meio produtivo e inevitáveis prejuízos ao ambiente.

Esta mentalidade de nossos governantes, independentemente de partidos políticos, tem levado vários programas de desenvolvimento a enfrentar problemas de difícil solução, com a iminente degradação dos solos por salinização e/ou sodificação, problema este que vem assolando os perímetros irrigados da região e que alcança, atualmente, patamares da ordem de 25 a 30% de suas áreas, conforme têm demonstrado alguns trabalhos realizados pela SUDENE. (GOES, 1978).

Irrigar não significa, apenas, levar água às culturas por meio de tubulações ou canais previamente calculados. Significa, também, ajustar as quantidades aplicadas às necessidades hídricas dos vegetais, levando-se em conta as características do solo e clima locais, bem como, a qualidade da água utilizada na irrigação.

Preocupado com este problema, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq, contando com a colaboração da Fundação Joaquim Nabuco-FUNDAJ, do Instituto Francês de Pesquisa Científica para o Desenvolvimento-ORSTOM e das Universidades Federais do Ceará, da Paraíba, Rural de Pernambuco e Escola Superior de Agricultura de Mossoró (RN), concluiu a primeira fase de uma pesquisa (Processo CNPq/ORSTOM ndeg. 21.0286/87-6), com o apoio financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento-BID, que objetivou a análise da qualidade das águas de irrigação utilizadas em pequenas propriedades pelo PDCT/NE, em termos de composição química e níveis de concentração de sais, além da determinação da sua variação sazonal em condições reais de campo.

Esta experiência confirmou a existência do risco de salinização dos solos quando também se utiliza a pequena irrigação, e destacou as limitações decorrentes desse processo para a produção das culturas, em particular a da bananeira, que foi largamente cultivada no PDCT por motivos alimentares e econômicos. Entre os fatores responsáveis pela salinização, a qualidade da água foi considerado o mais importante e dos menos remediáveis, fator este ainda complicado por uma variação sazonal de grande amplitude.

Um primeiro relatório desse trabalho foi elaborado e amplamente divulgado, contendo um catálogo completo das observações de campo e dos resultados das análises, apresentando detalhadamente a metodologia utilizada para todas as fases da pesquisa e incluindo uma apresentação gráfica da salinidade e sua evolução sazonal, para cada ponto de amostragem.

O presente documento trata da interpretação dos dados obtidos na primeira fase da pesquisa, a qual redundou na edição de um livro apoiado pelo CNPq (Processo ndeg. 910225/93-1), enfocando a questão por meio de reflexões sobre os processos naturais que determinam a diversidade da salinidade observada; de orientações para a extrapolação desses resultados a nível regional; de precauções para a escolha das fontes de água para uso na pequena irrigação e as suas condições de aproveitamento e de avaliação das conseqüências do uso indiscriminado dessas águas, no que diz respeito à produção das culturas irrigadas e ao risco de degradação dos solos por salinização e/ou sodificação, no sentido de precisar essas regras de uso e de manejo.

INTRODUÇÃO

Apesar de vários estudos sobre solos e recursos hídricos no Nordeste, não existe, todavia, uma estimativa confiável da área irrigável da região.

Segundo CARVALHO (1985 a), o potencial de áreas irrigáveis, com recursos hídricos locais no semi-árido nordestino, aí incluídas as terras do vale do São Francisco, inseridas no polígono das secas, é de cerca de 1.514.000 ha. ALVARGONZALEZ (1984), não acha prudente esperar que este potencial supere 2.500.000 ha.

Tomando-se por base esta última estimativa mais otimista, a conclusão que se chega é a de que, no Nordeste, aproximadamente 2% de sua área, são passíveis de irrigação (o Nordeste tem uma área aproximada de 1.640.000 Km2), devido às limitações existentes em termos de qualidade de solos e, o que é mais grave , de quantidade e qualidade de água.

Apesar desta constatação, as ações de governo, notadamente as de âmbito estadual, têm sido e continuarão sendo, voltadas para o desenvolvimento da pequena irrigação, nos 98% restantes da área, na maioria das vezes, localizada em terrenos de aluvião sobre o escudo cristalino, aproveitando-se a existência de fontes de água, como: poços amazonas, pequenos açudes, rios etc., para realizar os bombeamentos necessários.

Ações dessa natureza foram implementadas no Estado de Pernambuco, em projetos voltados a produtores de baixa renda, a exemplo do Chapéu de Couro, Asa Branca, e Água na Roça, bem como o projeto Canaã, na Paraíba, ou mesmo projetos como o Sertanejo, GAT/PDCT-NE e Polo Nordeste, na esfera federal, tendo em vista a preocupação, sempre constante, dos governantes, de buscar alternativas viáveis para a fixação do homem no campo.

Nosso objetivo com o presente trabalho é o de mostrar o quanto é complexo o conjunto de ecossistemas nordestinos, localizados nestes 98% de sua área, no tocante, especificamente, à qualidade e disponibilidade das águas e, como tal, devem ser tratados com o devido cuidado, para que não venhamos a ter insucessos nas práticas futuras da pequena irrigação na região.

1- CARACTERES CLIMÁTICOS DA REGIÃO NORDESTE

1.1- Formação dos climas

ANDRADE & LINS (1991), em seu minucioso estudo sobre os climas do Nordeste, mostram, de maneira clara, a formação das variações climáticas da região, influenciada, basicamente, pela ação de massas de ar que para ali se deslocam, e pela configuração de seu relevo no chamado efeito orográfico indutor de chuvas. Segundo os autores, várias são as massas de ar que, de uma forma ou de outra, interferem na formação dos climas do Nordeste. São elas: a Equatorial Atlântica (Ea), a Equatorial Continental (Ec), a Polar (P) e as Tépidas Atlântica (Ta) e Calaariana (Tk). (fig. 1).

As massas de ar Ta e Tk têm origem no Atlântico Sul em redemoinho anti-ciclônico, em seus flancos oriental e setentrional, respectivamente. O flanco oriental alcança o deserto de Kalahari na África do Sul, originando o ar tépido calaariano, e o flanco setentrional passa sobre o oceano, originando o ar tépido tlântico. Essas duas massas de ar, em si, possuem características distintas em suas propriedades físicas e estruturais. A Ta tem propriedades marinhas (morna e úmida) e a Tk propriedades desérticas (morna e seca).

É exatamente este ar de origem desértica que gera as condições climáticas de aridez no Nordeste.

O ar tépido tem outras influências na formação dos climas do Nordeste, seja no estabelecimento da chamada Frente Polar Atlântica (FPA), através de seu encontro com a massa Polar originária da região peri-glacial antárctica, seja na formação da Convergência Inter-Tropical (CIT), através de seu encontro com o ar Equatorial Atlântico, formado no Atlântico Norte.

A massa Polar, depois de sofrer interferências do ar tépido atlântico, transforma-se na FPA que se bifurca ao longo de duas trajetórias: uma continental interior, que pode projetá-la até o Equador e outra marítima ou costeira, que alcança toda a costa oriental do Nordeste até a altura do Cabo de São Roque (RN). O encontro da FPA costeira com o ar tépido atlântico, morno e rico em umidade, gera neste um resfriamento, que acarreta aguaceiros tempestuosos na costa oriental do Nordeste no outono/inverno. Este efeito se acentua quando a FPA costeira se introduz, à maneira de cunha de ar frio, por baixo do ar tépido calaariano, que adquiriu certa umidade no percurso da África ao Brasil, refrescando-o e fazendo-o elevar-se, nele desencadeando, a instabilidade condicional.

Fig. 1 - Circulação das massas de ar formadoras dos climas do Nordeste

Explica-se deste modo a existência da zona úmida na faixa costeira oriental nordestina.

A FPA, por sua vez, vai perdendo energia no seu percurso, não só no rumo Sul/Norte, como também na sua interiorização na região. Como exemplos podem ser citadas as precipitações do Recôncavo Baiano (BA) e Barreiros (PE) com 2000 mm anuais, chegando a Natal (RN) com 1450 mm, bem como Olinda (PE) com 1436 mm, atingindo 1175 mm em Nazaré da Mata (PE).

Outra massa de ar que exerce influência nos climas nordestinos é a Equatorial Atlântica (Ea), originária do Atlântico Norte, que após alimentada pelos alísios boreais e austrais, vai de encontro ao ar tépido originando uma zona denominada de Convergência Inter-Tropical (CIT).

O alastramento da CIT inclui a costa setentrional do Brasil, a partir do Amapá, até a costa oriental do Nordeste na altura do Cabo São Roque, no verão/outono, ocasionando as precipitações no litoral do Ceará e Rio Grande do Norte. Em anos de maior energia, a CIT pode adentrar a região além da costa alagoana.

Um fato interessante que merece ser abordado é a inexistência de zonas úmidas no litoral setentrional do Nordeste, em contraste com a Zona da Mata no seu litoral oriental, salvo a ocorrência de regiões sob a influência orográfica comentada mais adiante. A explicação é que, naquela região, 92% das precipitações da CIT são consumidas por evaporação, em face da forte insolação ali existente. Nela, a terra recebe quase 3000 horas de luz solar por ano e é castigada por ventos de 2 a 20 km/h, sendo a superfície do solo aquecida até 60 Co no verão e sujeita a um deflúvio médio de 73000 m3 de água por km2 de captação (DUQUE, 1980 a). Não é por outra razão que ali a caatinga avança até o mar e que existem, na costa setentrional nordestina, parques salineiros responsáveis por 60% da produção brasileira de sal de cozinha.

A última massa de ar que exerce influência na formação dos climas do Nordeste é a Equatorial Continental (Ec), que tem origem na região amazônica. Ela tem características marinhas (quente e úmida) em face dos suprimentos de vapor d'água emanados da floresta amazônica por evapotranspiração. No verão, ela entra em expansão e afeta o flanco ocidental do Nordeste. É por esta razão que não existe Semi-árido no Estado do Maranhão.

Em anos de grande energia, a Ec pode submeter todo o País a chuvas de verão, com exceção da costa oriental do Nordeste, onde se mantém a Tk e Ta, e das áreas do paralelo 27 sul (Santa Catarina/Rio Grande do Sul).

O outro fator importante na formação do clima é a influência do relevo (fig. 2). Normalmente, quando uma massa de ar tépido vai de encontro a uma encosta, ela é resfriada pelo fluxo de ar dominante daquela região, à medida que vai se elevando na encosta. Normalmente, a barlavento este ar torna-se fresco e posteriormente frio, havendo, no ápice da encosta, uma condição de instabilidade com a ocorrência de chuvas. A este fenômeno dá-se o nome de efeito orográfico ou ocorrência de chuvas de relevo. Havendo esta descarga, o ar normalmente torna-se seco e quente a sotavento.

Casos típicos desse fenômeno podem ser observados em Areia (PB), cidade que está localizada sobre o Planalto da Borborema, com clima úmido (efeito orográfico), apresentando a cidade de Alagoa Grande, em sua base oriental a barlavento, clima de caatinga e as cidades de Esperança e Remigio, na parte ocidental a sotavento, clima agreste (DUQUE, 1980 b). Dessa mesma forma, a Serra da Ibiapaba no Ceará exerce influência na cidade de Tianguá, de clima úmido, com áreas a sotavento apresentando um grau de aridez suficiente para a ocorrência de vegetação tipo carrasco, assim denominada pelo autor acima mencionado.

Muitos outros exemplos são citados por ANDRADE & LINS (1971) com características semelhantes, como as regiões de Garanhuns e Triunfo (PE) e os brejos de Mata Grande e Água Branca (AL), estes influenciados pela Serra Negra com mais de 1000 m de altitude, a Serra das Varas na região de Arcoverde (PE), com 1500 mm de chuva no ápice, ocasionando precipitações a sotavento de 540 mm naquela cidade e, finalmente, a cidade de Cabaceiras (PB), localizada na região mais seca do País, com precipitações de 278 mm, escondida a sotavento do alinhamento Cornoió-Caturité-Bodopitá, a 160 km do litoral.

Apesar da influência das massas de ar penetrando em seus quatro flancos, o Nordeste apresenta mais da metade de sua superfície com clima semi-árido, porquanto a circulação dessas massas se processa de um ano para o outro com maior ou menor eficácia, ou com maior ou menor energia (ANDRADE & LINS, op. cit.).

Este fenômeno também interfere na irregularidade das precipitações (DUQUE, 1980 b). O quadro 1 mostra índices pluviométricos, em anos considerados secos, da região de Souza (PB), onde 45% da média das chuvas caídas em cada ano ocorrem em um único mês e 42% desse total em uma única chuva.

Além do fenômeno da irregularidade com que as chuvas ocorrem, o volume d'água caído anualmente na região é subaproveitado. Do total da precipitação pluviométrica anual caída, estimada em 700 bilhões de m3, 642,6 bilhões de m3 são consumidos pelo fenômeno da evapotranspiração e cerca de 36 bilhões de m3 são desperdiçados, em virtude do escoamento superficial das águas para os rios e destes para o mar (OLIVEIRA e BATISTA DA SILVA, 1983).

Finalmente, é oportuno comentar, o que caracteriza a seca não é o total de chuvas caídas e sim a irregularidade de sua distribuição. DUQUE (1980 b), exemplifica com dados de São Gonçalo (PB) em 1950, onde foram registrados 589 mm de chuvas e houve boas safras, enquanto em 1953, com 563 mm, o ano foi ruim para as lavouras.

1.2 - Demanda Evaporativa

Como foi visto anteriormente, a região revela uma incrível energia disponível, com elevadas horas de sol por ano, incidência de ventos fortes e quentes, fenômenos estes que trazem como consequência elevados índices de evaporação. Alguns valores de evaporação são apresentados por DUQUE (1980 b) no quadro 2, correlacionando-os com as médias das chuvas caídas nas regiões do Seridó, Caatinga, Sertão, Agreste e Mata. Observando os valores, conclui-se que, no Semi-árido (região que compreende o Seridó, a Caatinga e o Sertão), a evaporação potencial atinge uma média em torno de 2000 mm anuais.

Quadro 1 - IRREGULARIDADE NA CAÍDA DAS CHUVAS

Paraíba - Município de Souza - Açude de São Gonçalo

Ano de 1941 (considerado seco)

Chuva total do ano

Chuva total do mês de março

Chuva total do dia 6 de março

674 mm

309 mm (45% do ano)

125 mm (40% do mês)

Ano de 1942 (considerado seco)

Chuva total do ano

Chuva total do mês de abril

Chuva total do dia 10 de abril


468 mm

207 mm (44% do ano)

93 mm (44% do mês)

Ano de 1951 (considerado seco)

Chuva total do ano

Chuva total do mês de abril

Chuva total do dia 23 de abril


726 mm

317 mm (43% do ano)

115 mm (36% do mês)

Ano de 1953 (considerado seco)

Chuva total do ano

Chuva total do mês de março

Chuva total do dia 26 de fevereiro


563 mm

254 mm (45% do ano)

113 mm

Ano de 1958 (considerado seco)

Chuva total do ano

Chuva total do mês de março

Chuva total do dia 28 de março

535 mm

275 mm (51% do ano)

127 mm (46% do mês)

Quadro 2 - RELAÇÃO EVAPORAÇÃO/PRECIPITAÇÃO

Região


Chuva

Média

Evap.

Média

Relação

C/E

Seridó-Cruzeta-RN (1933-38) (1940-46)
497
2975
1:5,8
Seridó-Quixeramobim-CE (1912-58)
750
1898
1:2,5
Caatinga-Floresta-PE (1939-58)
395
1897
1:4,8
Caatinga-Monteiro-PB (1942-54)
489
1740
1:3,6
Caatinga-Paratinga-BA (1947-55)
659
2135
1:3,2
Caatinga-Barra-BA (1946-54)
692
1716
1:2,5
Caatinga-Juazeiro-CE (1940-54)
800
2054
1:2,5
Caatinga-Ibipetuba-BA (1945-55)
844
1831
1:2,2
Sertão-Souza-PB (1939-58)
750
1865
1:2,5
Agreste-Natal-RN (1940-57)
1038
2084
1:2,0
Agreste-Conquista-BA (1931-54)
680
1193
1:1,8
Agreste-Pesqueira-PE (1912-43)
713
1220
1:1,7
Agreste-Jacobina-BA (1945-55)
893
1379
1:1,5
Agreste-Jaguaquara-BA
620
859
1:1,3
Agreste-Itaberaba-BA (1954)
942
1247
1:1,3
Mata-Itabaianinha-SE (1945-55)
997
1010
1:1,1
Mata-Ibura-PE (1945-57)
1500
1282
1:0,9
Mata-Aracajú-SE (1945-55)
1274
1146
1:0,9
Mata-Cruz das Almas-BA (1950-55)
935
785
1:0,8
Mata-Maceió-AL (1923-54)
1300
1033
1:0,7
Mata-Teresina-PI (1911-54)
1390
1054
1:0,7
Mata-Ondina-BA (1945-55)
1831
960
1:0,5

Esta elevada demanda evaporativa, com uma relação chuva/evaporação chegando a atingir 1:5,8 em Cruzeta (RN), 1:4,8 em Floresta (PE), 1:3,6 em Monteiro (PB), 1:3,2 em Paratinga (BA), caracteriza bem a região Semi-árida do Nordeste chegando a ocupar cerca de 52,4% de sua superfície (fig. 3).

2 - CARACTERES EDÁFICOS DA REGIÃO NORDESTE

Geologicamente falando, no Nordeste existem dois grandes conjuntos estruturais: as Bacias Sedimentares e o Escudo Cristalino (IBGE, 1985; e CARVALHO, 1973).

Na Bacia Sedimentar, os solos geralmente são profundos (superiores a 2 m, podendo ultrapassar 6 m), com alta capacidade de infiltração, baixo escorrimento superficial e boa drenagem natural. Estas características possibilitam a existência de um grande suprimento de água de boa qualidade no lençol freático que, pela sua profundidade está totalmente protegido da evaporação (fig. 4a). No Nordeste, este conjunto está localizado em praticamente todo o Estado do Maranhão, no Piauí, excetuando-se uma estreita faixa na região sudeste e na Bahía, localizado em boa parte da região oeste, no sudeste e em toda a chapada Diamantina. Alcança, ainda, todo o litoral de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará, incluindo neste último estado a chapada do Araripe (CARVALHO, 1973), (fig. 5).

No Escudo Cristalino, os solos geralmente são rasos (cerca de 0,60 m), apresentando baixa capacidade de infiltração, alto escorrimento superficial e reduzida drenagem natural (fig. 4b). Numa comparação grosseira, é como se estes solos estivessem sobre um prato, onde a pouca quantidade de água que consegue se infiltrar é armazenada no fundo (SUASSUNA, 1989). A importância dada aqui aos solos, merace alguns comentários. AUDRY & SUASSUNA (1990), afirmam que a natureza da rocha é sempre um fator importante da formação dos solos e, em condições litológicas monótonas, outros fatores como a topografia e a drenagem, regem uma sucessão ordenada de solos interrelacionados ao longo das vertentes. No Nordeste cristalino, este fator rocha, se torna mais determinante ainda, quando, frequentemente, as

variações litológicas são rápidas em relação com uma tectônica atormentada. Constata-se nestas condições que, a diferenciação e a distribuição espacial dos solos é diretamente dependente da litologia. Ora, na medida em que as variações litológicas, também determinam a topografia (as rochas mais resistentes constituindo a estrutura dos relevos), a organização dos solos integra, então, além dos solos, os fatores: relevo, geologia e drenagem, como mostrado, por exemplo, na região de Sumé (PB), por MOLINIER et alii (1989).

Os aquíferos dessa área caracterizam-se pela forma descontínua de armazenamento. A água é armazenada em fendas/fraturas na rocha (aquífero fissural) e, em regiões de solos aluviais formam pequenos reservatórios, de qualidade não muito boa, sujeitos a exaustão devido a ação da evaporação e aos constantes bombeamentos realizados. Segundo DEMÉTRIO et alii (1993), as águas exploradas em fendas de rochas cristalinas são, em sua maioria, de qualidade inferior, normalmente servindo apenas para o consumo animal; às vezes atendem ao consumo humano e raramente prestam-se para irrigação. São águas cloretadas, classificadas para irrigação, de acordo com normas internacionais de RIVERSIDE, acima de C3S3[1] (BERNARDO, 1984) e que apresentam, normalmente, resíduos secos médios da ordem de 1924,0 mg/l (média geométrica obtida através da análise de 1600 poços fissurais escavados no Estado de Pernambuco), com valor máximo de 31700 mg/l. Além da qualidade da água ser inferior, os poços apresentam baixas vazões, com valores médios de 1000 l/h.

Este Escudo Cristalino localiza-se em praticamente todo o interior do Estado do Ceará, parte meridional do Rio Grande do Norte, todo o interior da Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, bem como a parte centro-sul do Estado da Bahía (fig. 5). Em termos de região Nordeste, segundo CARVALHO (1973), este conjunto corresponde a 720.000 km2 ou 45% de sua superfície. Se for levada em consideração a região Semi-árida (os 52,4% vistos anteriormente), este percentual pode chegar a 70% dessa região (estimativa pessoal).

3 - RISCOS DE SALINIZAÇÃO

Fig. 5 - Localização das Bacias Sedimentares e do Escudo Cristalino

A existência de sais em águas utilizadas na irrigação do Nordeste, sem sombra de dúvidas, está relacionada com as características do substrato (natureza e tipo de solo) com o qual elas têm contato, ficando suas concentrações na dependência da evaporação existente em sua forma de jazimento. Dessa maneira, o usuário terá acesso a ela através da resultante dos fatores acima mencionados.

WALTER (1968), relaciona algumas teorias que explicam, de certa forma, as origens desses sais no solo:

1) Sal de rochas formadas por sedimentação marinha. Esse sal pode ser lixiviado pela água da chuva e transportado para as depressões. Nos desertos que possuem rochas sedimentares marinhas do Jurássico, Cretáceo ou da Era Terciária (por exemplo, o norte do Saara e o deserto egípcio), os solos salinos são comuns, ao passo que, nas regiões áridas com rochas magmáticas subjacente ou arenito, muito dificilmente se encontra algum solo salino.

2) Salinidade em áreas que, no mais recente passo geológico, eram leitos lacustres ou marinhos. São exemplos as áreas que cercam o Great Salt Lake, no Utah, em volta dos mares Cáspio e de Aral na Ásia Média, em volta do lago do Chad no centro norte da África e o Tuz Gölü, na Anatólia Central.

3) Água do mar finamente vaporizada pela força da arrebentação ao longo de costas áridas. As pequenas gotas secam e formam um pó salgado que pode ser soprado terra adentro. Esse sal, então, é levado para dentro do solo pela chuva ou simplesmente nele depositado. Um processo similar acontece também nas regiões úmidas, mas em tais regiões o sal está sendo continuamente lixiviado e devolvido ao mar via rios (sal cíclico). Nas regiões áridas sem escoamento, entretanto, o sal concentra-se e, por esse meio, origina uma salinidade igual à encontrada na parte mais externa do deserto da Namíbia e nas partes áridas do oeste da Austrália.

4) Água salgada vinda à tona nas nascentes, como acontece no norte das Terras Baixas Casparianas. Nesse caso, o sal origina-se em leitos marinhos que secaram em tempos geológicos anteriores e formaram grandes depósitos de sal a considerável profundidade.

Em nosso meio, podemos considerar a origem dos sais sobre três aspectos: através da dissolução ou intemperização (hidrólise hidratação, solução, oxidação e carbonatação) dos minerais primários existentes nas rochas e no solo (substrato), tornando-os mais solúveis; da concentração dos sais pela ação do clima e através do fenômeno do endorreismo que não facilita a drenagem.

Ao nível das plantas, os sais têm efeito significativo em sua fisiologia. Normalmente elas extraem a água do solo quando as forças de embebição dos tecidos das raízes são superiores às forças de retenção da água exercida pelo solo. À medida em que a água é extraída do solo, as forças que retêm a água restante tornam-se maiores. Quando a água do solo é retida com força superior às forças de extração, inicia-se o estado de escassez de água na planta. A presença de sais na solução do solo faz com que aumentem as forças de retenção por seu efeito de osmose e, portanto, a magnitude de escassez de água na planta. (AYRES e WESTCOT, 1991).

Os sais também causam redução na velocidade de infiltração da água no solo. Esta redução pode alcançar tal magnitude, que as raizes das plantas podem não receber água em quantidade suficiente entre os turnos de rega.

Outro fator importante da salinização é a toxidez de íons específicos (principalmente sódio, cloreto e boro) contidos no solo ou na água, os quais, acumulados nas plantas em concentrações suficientemente altas, podem causar danos e reduzir os rendimentos das culturas sensíveis. Estes sais também propiciam a corrosão excessiva dos equipamentos, aumentando os custos de manutenção e reparos (AYRES e WESTCOT, 1991).

A seguir, são traçadas considerações acerca dos riscos de salinização das águas, levando-se em conta a origem dos sais e o fator de concentração.

3.1 - Com sais carreados do substrato pela água da chuva

Pelo que foi visto anteriormente com relação ao clima (forte energia disponível, regime irregular das chuvas etc.) e, principalmente, no tocante a solos, não é difícil imaginar o quanto o Nordeste Semi-árido é vulnerável a salinização.

LEPRUN (1983), destaca que a qualidade das águas superficiais no Nordeste brasileiro (composição química e, sobretudo, nível de concentração), está claramente relacionada, de um lado, com a natureza do substrato local, especificamente a natureza da rocha e tipo de solo e, de outro, com o seu modo de jazimento, sendo as águas dos lençóis notadamente mais concentradas do que as de superfície (rios e açudes, ainda que, para estes últimos observa-se uma grande diversidade de comportamento). O autor afirma que o tipo de solo e do subsolo são um dos principais fatores que explicam as variações de qualidade das águas dos riachos. Mostra, através do quadro 3, como varia a condutividade elétrica média da água escoada superficialmente, em função dos principais tipos de solos, permitindo ordená-los e compará-los para se chegar àqueles de maior perigo à salinização da água.

MOLINIER et alii (1989), trabalhando em parcela de solo Bruno não Cálcico Vértico, na região de Sumé (PB), situado nos Cariris Velhos da Paraíba, observaram que a água da chuva após escorrimento superficial, tem um acréscimo na concentração salina de até 4 vezes. No mesmo solo, após infiltração de 0,80 m, esta concentração pode alcançar níveis superiores a 50 vezes (quadro 4).

Quadro 3 - CONDUTIVIDADE ELÉTRICA (MÉDIA) NO RIACHO EM FUNÇÃO DO SOLO DA BACIA

Tipo de solo Condutividade média

(microsiemens/cm)

Areia Quartzosa 98
Latossolos 188
Podzólicos 226
Regosolos -
Podzólicos Eutróficos -
Bruno não Cálcico 329
Vertissolos 484
Litólicos Eutróficos 621
Solonetz 2817
Planossolos 4596

Quadro 4 - CONCENTRAÇÃO SALINA DA ÁGUA DE CHUVA, APÓS PASSAR POR DIVERSOS NÍVEIS DO SOLO

Obs: CTD = Carga Total Dissolvida em g/kg

FATOR DE CONCENTRAÇÃO = Em ordem de grandeza

Estas observações se revestem de vital importância e mostram a necessidade de se conhecer melhor a dinâmica dos mananciais que irão ser utilizados em futuras irrigações. Isto nos leva a crer, no caso específico de pequenos açudes, por exemplo, que a forma de como eles recebem água da chuva irá influir sobremaneira na qualidade da água a ser utilizada. Se no período das chuvas um açude recebe água através de escorrimentos superficiais, a água represada, provavelmente, apresenta-se com baixos teores salinos, ao passo que se ele recebe a água através de uma drenagem natural do solo, após ter passado por camadas mais profundas do substrato, a situação torna-se completamente diferente da anterior, com uma maior probabilidade de carreamento de sais e consequentemente maior risco de salinização, conforme observado por MOLINIER et alii (1989).

Dessa maneira, não é difícil concluir que, em se tratando de poços amazonas em igual situação, a tendência do fator de concentração de sais é a de ser agravada, tendo em vista o carreamento dos sais das camadas mais profundas do solo aluvial para o interior do reservatório.

3.2 - Com o aumento da concentração via evaporação

Como foi visto anteriormente, a demanda evaporativa no Semi-árido nordestino atinge patamares médios anuais da ordem de 2000 mm. Isto significa dizer que diariamente são evaporados em torno de 6 mm de água, correspondendo por sua vez a 500 mm ou 0,5 m em 3 meses.

Se fizermos uma reflexão, levando em consideração os efeitos da evaporação em um pequeno açude com lâminas de água (distância do espelho d'água ao fundo do reservatório) variando de 10; 2,5 e 1,6 m, conforme demonstra o quadro 5, iremos chegar a seguinte conclusão:

- Considerando "p" o peso inicial de sal existente na água dos pequenos açudes igual a 1 (unidade), "Vi" como sendo a situação do volume inicial do açude , "v" como sendo a situação do volume após 3, 6, 9 e 12 meses de evaporação e "F" como sendo o fator de concentração, observa-se que no primeiro caso, ou seja, um açude com 10 m de lâmina d'água, ao final de um ano, a concentração salina pode chegar a 25%. Isto é fácil de entender porquanto, na evaporação, o que é subtraído do açude é a água, aumentando, portanto, paulatinamente a concentração dos sais.

- No segundo caso, ou seja, um açude com 2,5 m de lâmina d'água, a concentração salina pode atingir 400% ao final de um ano, chegando a 1500% no terceiro caso, com a sua total exaustão. Este, por sinal, é um exemplo bem característico da região, não sendo difícil serem observados, em períodos secos, leitos de açudes completamente desprovidos de água, com a lama endurecida, rachada e tendo em sua parte mais profunda, uma mancha branca, que nada mais é do que a deposição dos sais da água naquele local (MOLLE e CADIER, 1992).

Quadro 5- CASOS HIPOTÉTICOS DE AÇUDE SOB O REGIME DE EVAPORAÇÃO, EVIDENCIANDO O AUMENTO DA CONCENTRAÇÃO SALINA.

Período em meses
03
06
09
12
Caso 1 (10,0 m)

Fator de Concentração

Aumento Concentração

9,5

1,05

5%

9,0

1,11

11%

8,5

1,18

18%

8,0

1,25

25%

Caso 2 (2,5 m)

Fator de Concentração

Aumento Concentração

2,0

1,25

25%

1,5

1,67

67%

1,0

2,50

150%

0,5

5,00

400%

Caso 3 (1,6 m)

Fator de Concentração

Aumento Concentração

1,10

1,45

45%

0,60

2,67

167%

0,10

16,00

1500%

Seco

-

-

Dados: Evaporação 6 mm/dia ou 0,5 m/em cada 3 meses

p = 1 unidade (peso total de sal no início)

Vi = Situação do volume inicial Ci = p/Vi

v = Situação qualquer após a evaporação c = p/v

F = Fator de concentração F = c/Ci F = Vi/v

Ci = Concentração inicial

c = Ci x Fator de concentração

3.3 - EFEITOS DOS SAIS EM ORGANISMOS VIVOS

Está provado que concentrações salinas demasiadamente elevadas, causam distúrbios no organismo dos seres vivos.

LARAQUE (1991), em sua tese de doutorado citou, entre outros assuntos, as implicações causadas pela ingestão de concentrações salinas em diversos níveis, nos organismos de animais (rebanho e aves). Segundo o autor, esta ingestão tem as seguintes implicações:

Concentrações menores que 1000 mg/l

Teor de sal relativamente fraco. Excelente para todas as categorias de rebanho e aves.

1000 - 3000 mg/l

Muito bom para todas as categorias. Pode ocasionar uma diarréia temporária e leve, nos animais que não estão habituados com ela e fezes acuosas nas aves.

3000 - 5000 mg/l

Muito bom para os rebanhos, mas pode causar diarréia temporária naqueles animais que não estão habituados, ou ser rejeitada por estes no começo. Medíocre para aves, originando evacuações líquidas e uma grande mortalidade, principalmente nos perus.

5000 - 7000 mg/l

Razoavelmente segura para os rebanhos leiteiros e de corte, carneiros, porcos e cavalos. Evitar para os animais gestantes ou para aqueles que estão amamentando. Não aceitável pelas aves.

7000 - 10000 mg/l

Impróprias para aves e provavelmente para o porco. Risco considerável de ser utilizada por vacas, jumentos ou ovelhas gestantes ou que estão amamentando ou mesmo para seus filhotes. Em geral, é preciso evitar sua utilização pelos ruminantes e monogásticos.

Concentrações maiores que 10000 mg/l

Os riscos ligados a utilização dessas águas muito salgadas são tão consideráveis que torna-se impossível a sua utilização para quaisquer que sejam as circunstâncias.

(Considerar 640 mg/l de sais = CE 1000 usiemens/cm)

Para o consumo humano

Segundo CEDERSTROM (1964), águas com mais de 200 ppm (aproximadamente 200 mg/l) de cloreto têm o gosto desagradável. Bebendo-se em demasia, água com teor de cloreto acima de 1000 ppm, poderão ocorrer distúrbios no estômago. O Serviço de Saúde Pública dos EUA recomenda que, num sistema municipal, o cloreto não ultrapasse 250 ppm.

4 - A EXPERIÊNCIA DO GAT/PDCT-NE

SUASSUNA (1989), em artigo publicado no encarte agrícola do Diário de Pernambuco em 09.06.89, mencionou a ação do Subprograma de Geração e Adaptação de Tecnologias - GAT do Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para o Nordeste - PDCT-NE (gerenciado pelo CNPq e executado por Universidades da região), no tocante à implantação de pequenos projetos de irrigação, a nível de produtores de baixa renda no Semi-árido nordestino.

Segundo o autor, problemas de salinização e de dinâmica dos mananciais, principalmente com a sua exaustão ao constante bombeamento, já começam a ser evidenciados na região, notadamente naqueles projetos em que são utilizados poços amazonas e pequenos açudes como fonte de abastecimento.

Algumas propriedades do GAT podem ser citadas como possuidoras de problemas graves de sazonalidade nos teores de sais na água de irrigação ao longo do ano, chegando a ultrapassar 1500 microsiemens/cm de condutividade elétrica. São elas: Rocha e São José com poços amazonas, Monte das Graças e Maracajá com rio perenizado, todas no Rio Grande do Norte; Catolé, Prensa, Poço Redondo com poços amazonas e Porteiras com açude de médio porte, na Paraíba.

Nestas propriedades, no período seco, habitualmente as culturas apresentam queima na borda das folhas, tendo havido a necessidade de se introduzir outras culturas mais resistentes à ação de sais, como o coqueiro, nas propriedades Catolé e Prensa no município de Souza (PB) e a goiabeira, na propriedade São José em Angicos (RN).

Um fato curioso e até mesmo surpreendente verificou-se nas propriedades Montes das Graças e Maracajá, abrangidas pelo GAT, próximas a cidade de João Câmara (RN), ambas às margens do rio Ceará Mirim, recentemente perenizado pelo DNOCS com a construção do Açude Poço Branco, as quais, nos meses mais secos, apresentaram água com teores salinos próximos a 4000 microsiemens/cm. Esta represa foi construída pelo governo federal, para viabilizar a agricultura de todo o vale desse importante rio potiguar. Neste particular, a má qualidade da água do rio reflete, estritamente, a do reservatório de regularização, e este resultado exige prudência no tocante à pequena irrigação, sabendo-se que os açudes podem apresentar qualidade de água diversificada, conforme comentado por LEPRUN (1983), que é consequência direta dos tipos de solos da bacia a qual pertencem.

Além dos problemas de sais, algumas propriedades do GAT vêm apresentando, também, problemas de exaustão de mananciais devido ao freqüente bombeamento, aliado à elevada demanda evaporativa da região. São elas: Prensa, Riacho dos Alcindos e Santa Isabel com poços amazonas e Casa de Pedra com açude de médio porte, todas no Estado da Paraíba.

Estes problemas de qualidade de água e exaustão de mananciais foram constatados em viagem de supervisão técnica realizada no Estado da Paraíba e Rio Grande do Norte, em meados de março de 1989, e vieram a embasar a iniciativa de elaborar este trabalho, bem como as propostas de pesquisa a serem realizadas sobre a pequena irrigação no Semi-árido.

Atualmente, encontra-se em curso uma pesquisa financiada pelo CNPq (SUASSUNA & AUDRY, 1992 a, 1992 b, 1993 e 1995), que tem como objetivo analisar a sazonalidade dos teores de sais das águas utilizadas na pequena irrigação das propriedades do GAT. Esta pesquisa, que já resultou na publicação de um livro, é realizada através de cooperação técnica com o governo francês, por intermédio do Instituto Francês de Pesquisa Científica para o Desenvolvimento em Cooperação (ORSTOM), contando com o apoio da Fundação Joaquim Nabuco. Nela, foi confirmada a existência do risco de salinização dos solos, quando se utiliza a pequena irrigação, tendo sido dado destaque às limitações decorrentes para a produção das culturas, em particular a da bananeira, que foi uma das mais plantadas por motivos alimentares e econômicos. Entre os fatores responsáveis pela salinização, a qualidade da água foi apontado como um dos mais importantes e dos menos remediáveis (77% das amostras analisadas apresentaram índices elevados de salinidade, com condutividade elétrica superior a 750 microsiemens/cm), fator ainda complicado, na medida em que a salinidade dessas águas apresentaram variações sazonais de grande amplitude.

Neste particular a pesquisa constatou que a sazonalidade observada foi um fenômeno manifestado pela inércia das fontes utilizadas, através de condicionantes climáticos, seja pelo efeito da diluição dos sais pelas chuvas, seja pelo efeito de concentração pela evaporação acentuada. Em reservatórios de maior inércia, como por exemplo os grandes açudes, rios perenizados e poços amazonas, a variação sazonal mostrou-se de pequena ordem, ao passo que, os de menor inércia, representados pelos açudes pequenos e médios, poços naturais e aqueles escavados nos rios, apresentaram variação sazonal elevada.

A pesquisa veio a sugerir, também, um melhor uso para as águas salinizadas e com problemas de variação sazonal.

Sem abrir mão da drenagem e, para aquelas águas que apresentam variação sazonal e salinidade que não impedem o seu uso, sugere-se conservar a irrigação contínua, havendo a necessidade da escolha de culturas resistentes aos sais.

Para as águas que apresentam variação sazonal e salinidade proibitivas de uso, plantar culturas anuais e utilizar um calendário de rega na época em que a qualidade da água esteja em níveis aceitáveis.

Com as águas que apresentam qualidade ruim e vazão da fonte hídrica insuficiente, sugere-se a irrigação de complementação, também chamada na região de irrigação de salvação, na qual os sais serão lavados, posteriormente, pelas chuvas que ocorrem naturalmente na região.

5 - NECESSIDADES DE PESQUISAS

Pelo que foi visto, o Semi-árido nordestino é uma região que apresenta um conjunto de ecossistemas muito complexo em termos de solo, clima e, por consequência, de qualidade e quantidade de água. Por ironia, nos locais onde a água é de boa qualidade (estrutura sedimentar), o seu acesso torna-se por demais dispendioso, havendo a necessidade do uso de equipamentos que têm um custo de horas trabalhadas muito além do poder aquisitivo do pequeno produtor. Por outro lado, em regiões de mais fácil acesso à água, geralmente ela é pouca e de má qualidade (estrutura cristalina).

Não podemos ignorar, no entanto, mesmo em estrutura cristalina, a existência de regiões com possibilidades de serem irrigadas, principalmente em pequenas faixas de aluvião próximas a fontes de água que apresentam teores salinos aceitáveis e que têm garantido o sustento de inúmeras famílias nordestinas.

Feitas estas considerações, propõe-se que sejam envidados esforços no sentido de:

- Desenvolver um número maior de pesquisas relacionadas à dinâmica dos mananciais para fins de irrigação, levando-se em conta os aspectos quantitativos e qualitativos, visando a minimizar os riscos da salinização;

- Estudar com mais afinco o problema da drenagem, não apenas em termos da capacidade dos solos receberem e eliminarem a água com eventuais teores salinos mas, principalmente, sobre a tecnologia utilizada para a realização da drenagem;

- Desenvolver pesquisas visando à seleção de plantas que suportem o uso de águas com elevados teores salinos (acima de 750 microsiemens/cm de condutividade elétrica) ou mesmo de plantas halófilas, que se prestem para cultivo em áreas comprovadamente degradadas pela salinização.

- Realizar estudos que venham a subsidiar um zoneamento a nível estadual, das áreas com potencial para a implantação de projetos de pequena irrigação, levando-se em conta os fatores climáticos, edáficos e, principalmente, de quantidade e qualidade de água.

- Criar um banco de dados sobre salinidade das águas dos vários tipos de fontes da região, tendo em vista as dificuldades de acesso às informações hoje disponíveis.

6 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ANDRADE, Gilberto Osório de; LINS, Rachel Caldas- Os Climas do Nordeste, In: As Regiões Naturais do Nordeste, o Meio e a Civilização, CONDEPE, Pg. 95/138, Recife, 1971.

AUDRY, Pierre; SUASSUNA, João- A qualidade da Água na Irrigação do Trópico Semi-árido: um estudo de caso, In: Seminário Franco-Brasileiro de Pequena Irrigação, Pesquisa e Desenvolvimento, Anais do Encontro, SUDENE e Embaixa da França, Recife, 11 a 13 de dezembro de 1990.

AYRES, R. S.; WESTCOT, D. W. - A qualidade da Água na Agricultura, (tradutores H. R. Gheyi, J. F. de Medeiros, F. A. V. Damasceno), Campina Grande, UFPB, 1991. (Estudos da FAO: irrigação e Drenagem, 29 Revisado 1)

BERNARDO, Salassier- Manual de Irrigação, 3a ed., Viçosa,MG, UFV, Impr. Univ., 1984, 463 pg.

CARVALHO, Otamar de- Plano Integrado para o Combate Preventivo aos Efeitos das Secas no Nordeste, MINTER, Série Desenvolvimento Regional, número 1, abril, Brasília, 1973 a.

CARVALHO, Otamar de- O Nordeste semi-árido: questão de economia política. Campinas, UNICAMP, 1985 b. (Tese de Doutorado).

CEDERSTROM, D. J. - Água Subterrânea: uma introdução, USAID, Rio de Janeiro, 1964, 280 pg.

DEMÉTRIO, José Geilson Alves; DOHERTY, Frederico Roberto; ARAUJO FILHO, Paulo Frassinete de; SCHEFFER, Simone- Qualidade de Água Subterrânea no Nordeste Brasileiro, UFPE/IPA/LAMEPE, Comunicação Oral, In: 45a Reunião Anual da SBPC, Anais da Reunião, Recife, 11 a 16 de julho de 1993, Pg. 79.

DUQUE, José Guimarães - Solo e Água no Polígono das Secas, Coleção Mossoroense, Vol. CXLII, 5a Ed., Mossoró, 1980 a.

DUQUE, José Guimarães - O Nordeste e as Lavouras Xerófilas, Coleção Mossoroense, Vol. CXLIII, 3a Ed., Mossoró, 1980 b.

GOES, Edivaldo Sobral de - O Problema de Salinidade e Drenagem em Projetos de Irrigação do Nordeste e a Ação da Pesquisa com vistas a seu Equacionamento, IN: Anais da reunião sobre salinidade em áreas irrigadas, Min. do Interior/SUDENE, Fortaleza, 4 e 5 de maio de 1978.

IBGE - Atlas Nacional do Brasil: Região Nordeste, Rio de Janeiro, 1985.

LARAQUE, Alain - Comportements Hydrochimiques des "Açudes" du Nordeste Bresilien Semi-aride: evolutions et previsions pour un usage en irrigation, Universite de Montpellier, Paris, 1991, These de Doctorat.

LEPRUN, J. C. - Primeira Avaliação das Águas Superficiais do Nordeste: Relatório de fim de convênio de manejo e conservação do solo do Nordeste brasileiro, Recife, SUDENE-DRN, 1983, Pg. 91-141, Convênio SUDENE/ORSTOM.

MOLINIER, M; AUDRY, P; DESCONNETS, J.C.; LEPRUN, J.C.- Dinâmica da Água e das Matérias num Ecossistema Representativo do Nordeste Brasileiro: Condições de Extrapolação Espacial à Escala Regional,ORSTOM, Recife, 1989.

MOLLE, François; CADIER, Eric - Manual do Pequeno Açude: construir, conservar e aproveitar pequenos açudes, SUDENE/ORSTOM/TAPI, Recife, 1992.

OLIVEIRA, Francisco Tarcizio Goes de; BATISTA DA SILVA, João - Retorno de Investimento em Pesquisa feita pela EMBRAPA: contribuição ao controle dos efeitos da seca no Nordeste, IN: Quinto Livro das Secas, Escola Superior de Agricultura de Mossoró/Fundação Guimarães Duque, Coleção Mossoroense, Vol. CXCI, 1983, pg. 171 - 194.

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SUASSUNA, João; AUDRY, Pierre - Estudo da Salinidade de Águas Utilizadas em Pequena Irrigação no Nordeste e da sua Evolução Sazonal, durante os anos de 1988 e 1989, CNPq/ORSTOM/FUNDAJ, Informe Técnico In: I Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste, Anais do Simpósio, Recife, 25 a 27 de novembro de 1992 b, Pg. 303-305.

SUASSUNA, João - A pequena Irrigação do Nordeste: algumas reflexões, In: Caderno de Estudos Sociais, FUNDAJ, vol. 9, nº 1, pg. 121-142, janeiro/junho, 1993.

SUASSUNA, João; AUDRY, Pierre - Estatísticas de Salinidade das Águas de Irrigação do Nordeste Semi-árido Brasileiro, ORSTOM/FUNDAJ, Comunicação Oral In: 45a Reunião Anual da SBPC, Anais da Reunião, Recife, 11 a 16 de julho de 1993, Pg. 53.

SUASSUNA, João - A Pequena Irrigação no Nordeste: algumas preocupações, Revista Ciência Hoje, vol. 8, nº 104, SBPC, pg. 38-43, outubro, 1994.

SUASSUNA, João; AUDRY, Pierre - A Salinidade das Águas Disponíveis para a Pequena Irrigação no Sertão Nordestino: caracterização, variação sazonal e limitações de uso, CNPq/FUNDAJ/ORSTOM, Recife, Junho de 1995, 128 pg.

WALTER, Heinrich - Vegetação e Zonas Climáticas: tratado de ecologia global (tradutoras Anna Terzi Giova, Hildegard T. Buckup), revisão técnica e notas Antônio Lamberti. - São Paulo: EPU, 1986.

OBS - Tema apresentado no Workshop "Impactos Ambientais Associados a Utilização de Águas Dessalinizadas no Semi-árido"/ Ministério do Meio Ambiente - Fortaleza, CE., Junho de 1996.

[1]- Classificação proposta por técnicos do Laboratório de Salinidade de RIVERSIDE, USA, baseada na Condutividade Elétrica-CE, como indicadora do perigo de salinização do solo, e na Razão de Absorção de Sódio-RAS, como indicadora do perigo de sodificação do mesmo. Nesta classificação, tanto a CE, como a RAS são expressas em quatro intervalos de classes, de acordo com os perigos que as mesmas podem proporcionar ao solo. O esquema abaixo mostra os valores das classes estipulados em RIVERSIDE.

CLASSES DE PERIGO PERIGO / SALINIZAÇÃO
(mSIEMENS/Cm)
PERIGO / SODIFICAÇÃO
(RAS)
Baixo
Médio
Alto
Muito Alto
(1)
(2)
(3)
(4)
100<250
>250<750
>759<2250
>2250
(C1)
(C2)
(C3)
(C4)
0<10
>10<18
>18<26
>26
(S1)
(S2)
(S3)
(S4)
Assim, no exemplo citado de C3S3, significa tratar-se de uma água que possui um "alto"
perigo de salinizar e sodificar o solo, por apresentar uma (CE) compreendida entre 750
e 2250 microsiemens/cm (C3) e uma RAS entre 18 e 26 (S3).

Actualizado el 19/Oct/98
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